O meu Blog

O Blog "Verba Volant, Scripta Manent" foi criado no âmbito de um exercício académico (Humanística Digital). Desde então, e por forma a dar alguma continuidade à experiência iniciada na blogosfera, mantém o objectivo de partilhar alguns textos pessoais (sob o habitual pseudónimo Troyka Manuel), bem como outros materiais literários de interesse pessoal.

Todos os comentários, sugestões ou críticas serão sempre bem-vindos!

Porque as palavras faladas voam... e a palavra poética, tantas vezes, fala por si... e permanece... sempre!

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Reconhecimento à Loucura


Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-Ihe, e ganhar-Ihe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu Só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar

Poemas, Assírio & Alvim


2 comentários:

  1. Porque a saudade me diz muito...e está necessariamente ligadas aos amores que vivemos ou mesmo aqueles que ainda não vivemos e esperamos...

    CANÇÃO DA SAUDADE
    Se eu fosse cego amava toda a gente.

    Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha
    irmã gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la viva na minha
    edade.

    Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde móras, dize se vives ou se já nasceste.

    Eu amo aquella mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longissimos.

    Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.

    Eu amo aquellas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.

    Eu amo os cemiterios - as lágens são espessas vidraças transparentes, e
    eu vejo deitadas em leitos florídos virgens núas, mulheres bellas
    rindo-se para mim.

    Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres
    são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos.

    Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.

    Se eu fosse cego amava toda a gente.

    (Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1)

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    1. Não conhecia este, Paulo!!! Muito grato, porque, de facto, é belíssimo!! :-)

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