O meu Blog

O Blog "Verba Volant, Scripta Manent" foi criado no âmbito de um exercício académico (Humanística Digital). Desde então, e por forma a dar alguma continuidade à experiência iniciada na blogosfera, mantém o objectivo de partilhar alguns textos pessoais (sob o habitual pseudónimo Troyka Manuel), bem como outros materiais literários de interesse pessoal.

Todos os comentários, sugestões ou críticas serão sempre bem-vindos!

Porque as palavras faladas voam... e a palavra poética, tantas vezes, fala por si... e permanece... sempre!

sábado, 15 de novembro de 2014

[Eram três pássaros...]

Eram três pássaros presos numa garganta
Esvoaçavam, em vão, desejosos de partir
Um deles, conseguiu libertar-se
Outro deles sufocou de tristeza
O ultimo - amor que me quis -
deu-me as asas, a voz e a liberdade


(Troyka Manuel)

terça-feira, 28 de outubro de 2014

[Guardam-se restos amolecidos de tempo]

Guardam-se restos amolecidos de tempo
causas ganhas em tempo de chuva
mas a lama tem a memória curta
e o sol a torna ressequida e muda

Guardam-se generosos pastos verdejantes
na procura de uma alteridade urgente
mas o tempo amolecido 
- erva daninha que me belisca -
tem o apetite voraz de quem morde
ténue
sangrento
mortiço
e fugidio

(Troyka Manuel)

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

O olhar

nos meus olhos
carrego sonhos
como quem carrega
um hospício

como as ondas do mar
vão e vêm
e sempre inebriam
o meu olhar

(Troyka Manuel)

domingo, 12 de outubro de 2014

[É um lamento, uma palavra destoada]

(Para F.)

É um lamento, uma palavra destoada
É uma régua desalinhada, o cacho de uvas
Apodrecido pela chuva
É o caos, é a míngua e o excesso
É a saudade do que se não tem

Tudo o que se me move
Tem uma língua vermelha
O apetite voraz de uma ausência
Que nunca chegou a partir
E nunca partiu do chegar

(Troyka Manuel)

domingo, 28 de setembro de 2014

Alteridade

desse Outro que me toca
brota um silêncio ondeante
uma espiga que se acolhe no vento

(Troyka Manuel)

domingo, 14 de setembro de 2014

Ponte(s)

Esse caminho incerto que trilhamos
é o lugar onde nos cruzamos e nos encontramos
entre as palavras e o abraço
entre uma curva e um atalho

Somos ponte-pilar-sustentação
entre nós e os outros
entre margens que se olham
prenhes de sonhos que guiam e animam

Somos palavras-emoção
Somos palavras-caminho
Somos apenas o que ousamos ser

(Troyka Manuel)

Talvez


Conheci um dia
os passos de um transeunte
que cedo abandonou a sua pátria.
Vislumbrou todos os sonhos,
coseu esquinas com linhas duras
com medo de se perder.

O mar que o viu partir
ainda hoje chora a sua ausência,
uma demora por explicar ainda,
um regresso adiado
(talvez não volte a regressar),
uma pequena dor,
uma moinha que sangra
paulatinamente
e escorre esverdeada por todo o oceano.

Era jovem o transeunte
e acreditava no horizonte,
espelho de uma alma que se procurava
e se erguia livre no rumo que seguia.

Bem cedo, porém,
entendeu que é impossível
fixar instantes à beira da praia,
no areal desfeito das vontades.

Talvez tenha crescido
Ou talvez não...

(Troyka Manuel)

segunda-feira, 30 de junho de 2014

[No fundo da alma]

No fundo da alma
há um verso que não se lê,
impróprio, sorumbático, envenenado.
Carrega em si a visão abrupta
do exterior, a melancolia
de sermos sós.

No fundo da alma
há um mar, uma tempestade
em que não se mergulha,
há um verso que não se lê.
(Toyka M.)

sábado, 28 de junho de 2014

Água

Era o cais da partida
a vida interrompida
a espera o dia que não passa
a funda lucidez
o barco que foi e nunca voltou.

(Troyka Manuel)

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Encerramento

Conhecíamos os breves tormentos das pedras,
grandes tombos, viagens, inóspitos terrores.
Era como se os passos se dificultassem
e uma voz rouca trepidasse nas nossas gargantas.

Era uma fúria, uma névoa, uma taciturnidade
de ventos frustres que nos ensinavam a erguer a cabeça,
a olhar para a frente e em toda volta.
Com medo, mas com calma.

Como um pequeno barco de papel rasgado,
afundámos na água transparente.
(Devagar como quem entra na noite)

Desfez-se em mil pedaços
E tingiu de vermelho a água que passava.
Devagar como quem já entrou na noite
e fecha os olhos para poder ver...


(Troyka Manuel)

sexta-feira, 30 de maio de 2014

entre um sim e um não 
a dúvida de um passo a viagem
o caminho a água ou o deserto

(Troyka M.)

domingo, 18 de maio de 2014

Régua. Compasso. Esquadro.
De todas as formas definidas
ou previsíveis,
em nenhuma ousei caber.

Régua? Compasso? Esquadro?

Assim a melodia de uma vida
que se deixa em suspenso
à espera de um risco…


(Troyka Manuel)

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Em Todas as Ruas te Encontro

M. CESARINY


Em todas as ruas te encontro 
em todas as ruas te perco 
conheço tão bem o teu corpo 
sonhei tanto a tua figura 
que é de olhos fechados que eu ando 
a limitar a tua altura 
e bebo a água e sorvo o ar 
que te atravessou a cintura 
tanto tão perto tão real 
que o meu corpo se transfigura 
e toca o seu próprio elemento 
num corpo que já não é seu 
num rio que desapareceu 
onde um braço teu me procura 

Em todas as ruas te encontro 
em todas as ruas te perco 

Mário Cesariny 
In "Pena Capital"


quarta-feira, 7 de maio de 2014

Vieste como um barco carregado de vento

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o frio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

© Maria do Rosário Pedreira
Em “ O Canto do Vento nos Ciprestes”
Editora: Gótica, 2001

domingo, 27 de abril de 2014

Quando todas as probabilidades
parecem estar sepultadas,
a vida se compensa
e exuma ternos instantes de sol
junto a uma praia serena…

Mergulhamos?


(Troyka Manuel)

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Abril que não conheci

Foi em Abril a Revolução,
esse Abril que eu não conheci.
Abril da Liberdade
do país em que nasci.
Hoje canto Abril esquecido
e a minha voz arrasta
uma nação que gritou “Basta!”.
Foi Abril, pode ser sempre Abril!

Cantam os cansados, os desgastados,
quem acredita e quem chora.
Abril não conheci,
mas acredito que um homem
só pode ser livre de mão dada com o outro,
e esse grito,
uníssono da nossa voz,
levantará a terra da inércia
e cantará, mais uma vez,
o verdadeiro significado da LIBERDADE.

Foi Abril, pode ser sempre Abril!
(Troyka Manuel)

terça-feira, 22 de abril de 2014

Se um dia eu partir
falas de mim aos teus filhos
revives a vida que me foi dada
nos braços da liberdade de tentar

Se um dia eu partir
falas de mim por aí para não ser esquecido
revives uma sombra que correu ao sol
nas mãos de um coração que se quis dar

Se um dia eu partir
falas de mim ao mar e às estrelas
num gesto que foi meu
interrupção sentida de uma alma
que mergulhou verticalmente
onde mais ninguém ousou partir

(Troyka Manuel)


terça-feira, 15 de abril de 2014

o Ganges sagrado banha a vida
o espectro profano de outro eu
em nevoeiro ensandecido


(Troyka M.)

segunda-feira, 14 de abril de 2014

escondes-te atrás dos segredos
boquiabertos
a chuva já te não toca
os meus pés não resistem
a lonjura
o teu corpo segue outro sentido

eu desisto de ti

(Troyka M.)

domingo, 30 de março de 2014

o amarelado do tempo gasto
renova-se a cada passo
paredes rentes de horizontes
se multiplicam
(as prisões não são eternas
as armas cansam-se de apontar)

desfazem-se os grilhões
que nos toldam a vista e os braços
se hoje é o dia acorrentado
amanhã será o dia dos primeiros passos

(Troyka Manuel)

quarta-feira, 26 de março de 2014

Horologium (do Latim = Relógio)

já me perdi em cendradas amarras
já me perdi em becos-atalhos
hoje parto 
descalço de mim,
caminhando para ti

já me perdi em tácitas palavras
já me perdi em quiméricas torres
hoje parto 
esquecido de mim,
embarcando para ti

(Troyka Manuel) 

segunda-feira, 24 de março de 2014

Amanhecer

Acorda a vida!
Acorda para a vida!
Há em ti o cansaço e a estiva,
o sono e o sonho,
o erro e a correcção.

Acorda a vida!
Acorda para a vida!
Descobre as botas esquecidas,
põe-te ao caminho!
Desarruma a sala
e perde-te em todos os cantos,
preenche o vazio invernal!

Raspa a lama ressequida,
sabor-passado,
e estende a tua pele ao Sol!


(Troyka Manuel)

domingo, 23 de março de 2014

Seguimos por mares
ondulados e inquietos,
serras paradas,
ruas estreitas
e outras vielas.
Na névoa imberbe, a tua mão!
E eu, sem saber,
estremeci…


(Troyka Manuel)


sexta-feira, 21 de março de 2014

Porque há dias assim... Porque sim... E porque faz sentido:


Calam-se as vozes trémulas 
do rosto inanimado,
voltam costas às aguas pequenas,
ao chão frémito, ondulado, gasto.

Lá longe, ruma ele encantado,
- lá vai ele, o estulto feliz! -
saltando, fazendo piruetas,
criança que encontrou um tesouro.
Inocente. Crente. Para sempre.
(Troyka Manuel)

terça-feira, 11 de março de 2014

Somos dois abismos - um poço fitando o Céu.

("Livro do Desassossego" por Bernardo Soares)

)

sábado, 8 de março de 2014

Repara!
A noite não é tão escura quanto parecia.
Encontrámos um rio, uma torrente,
(mesmo que passageira seja)
uma torrente cálida,
a vontade de nos acontecermos outra vez.


(Troyka Manuel)

terça-feira, 4 de março de 2014

Evocadas distâncias


E eu perco-te assim
Passo a passo,
no devaneio de uma vida
que nos escalda e arremessa,
no turbilhão dos sentidos
e da maresia.

Perco-te
sem nada fazer...

(Troyka Manuel)

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Charco

retine no charco um som de luz bravia
pela manhã que se abre
olhos postos na água brilhante
dóceis, quentes e ternos
mergulhados de vida crescente
e esperanças vadias

repousa o reflexo do ungido pelos deuses
e a face toma as mais belas formas
dissipam-se todas as sombras guardadas
em gavetas mal arrumadas
e a luz… a luz intensa que nada esconde
ressuscita todos os corpos da morte lenta 
(Troyka Manuel)

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

"gente que fica na história da história da gente"

navegamos o olhar
entre mares que nos inundam
pés descalços mãos inquietas
corpo alentado de esperança

irrompem tempestades chuvas fortes
nuvens negras que passam
em arco-íris transformadas

Esta é a história de gente que VIVE,
esta é a história
de "gente que fica na história da história da gente".


(Troyka Manuel)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

"Entregentes"

Sós em caminho algum
que se defina ou se prescreva
Sós em rede alguma
que se desfaça ou se rasgue
Enlaçados no critério 
mais simples, mais verdadeiro
A veleidade pura
quente honesta
de nunca estarmos sós

(Troyka Manuel)


sábado, 11 de janeiro de 2014

Pretérito Presente

Eram asas pesadas graves contritas 
chãs de terra e por terra
ausência de luz num canto discreto
eram asas paradas cansadas 
bonança doente mareada
um voo raso que não chegou a levantar
Foram asas fechadas anquilosadas

São asas abertas um caminho em direcção
asas que descobrem asas outras
lustrosas de espelho-vento que sopra e agiganta
asas que se cansam e se fecham e se abrem
asas que reconhecem asas
abrigo-luz de um passo toque um fôlego
de outras tantas iguais que hoje se abraçam

Eram asas pesadas
Foram asas fechadas
São asas que cobrem e afagam
e em colos de penas se deixam deitar
(Troyka Manuel)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

em contra-relógio
tique-taque tique taque
canso-me sem andar
corro para me cansar
tique-taque tique-taque
as badaladas retinem surdamente
góticas em quebranto

tique-taque tique-taque
sobreviverá ainda alguém?
conto o tempo
estou cá para ver

tique-tique-tiq-tiq-ti-ti-t-t-TAQUE!

domingo, 5 de janeiro de 2014

Hoje

Hoje o mundo parou para me ouvir
hoje o mundo hesitou
parou
no momento certo em que que me calava
Palavras proferidas do cansaço
da gasta presença de tanto desejar
Extenuada existência de tudo e de nada
Repugnante realidade de
(tantas vezes)
ser e existir

Cansaço!

Hoje o mundo parou para me ouvir
e eu nada tive para dizer
Perdi as palavras pela rua deserta
disse tudo às estrelas enfraquecidas
Chamaram gritaram para eu voltar
mas hoje
só por hoje
eu não consegui ouvir


Troyka Manuel